O "misterioso compartimento da sobremesa": Por que sempre temos espaço para o doce?
Nutricionista e pesquisadora explica como os mecanismos cerebrais de recompensa e os diferentes tipos de fome influenciam nosso comportamento alimentar e os índices de obesidade.
Você já sentiu que, mesmo após uma refeição completa e satisfatória, parece haver um "compartimento extra" esperando pelo doce? A sensação de que o jantar está incompleto sem a sobremesa é um fenômeno comum, mas a explicação para isso está menos no estômago e muito mais no nosso cérebro.
Esse desejo persistente envolve sistemas neurais de prazer e recompensa. Para decifrar esse mecanismo, precisamos entender a distinção entre os três principais tipos de fome descritos na literatura científica:
1. Os Três Pilares da Fome
Fome Homeostática: É a fome fisiológica real. Ela surge da necessidade energética do corpo e é regulada por hormônios como a grelina (que sinaliza a fome) e a leptina e insulina (que sinalizam a saciedade).
Fome Hedônica: Motivada pelo prazer. É estimulada pelo cheiro, sabor e aparência do alimento. Aqui, o sistema de recompensa libera dopamina e endorfina, impulsionando o comer mesmo sem necessidade calórica.
Fome Emocional: Uma ramificação da fome hedônica, mas ligada ao estado psicológico. Ocorre quando usamos o alimento (geralmente doces e ultraprocessados) para mascarar ou lidar com emoções, como estresse ou tristeza.
O Impacto na Saúde Pública
A compreensão desses mecanismos é urgente. Segundo o World Obesity Atlas, 68% dos adultos brasileiros apresentam excesso de peso. As projeções são alarmantes: até 2030, metade da população adulta do país pode ser classificada como obesa.
Estudos recentes (2024) reforçam que há uma associação direta e significativa entre a fome hedônica e o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC). Além disso, dados mostram que quase 45% dos indivíduos com obesidade apresentam comportamentos frequentes de fome emocional.
"O 'espaço para a sobremesa' não representa ausência de saciedade, mas a coexistência de diferentes formas de fome."
Ambiente e Hábito: O desafio moderno
Vivemos em um ambiente cercado por alimentos ultraprocessados e altamente palatáveis, o que facilita a resposta automática ao impulso do doce. Muitas vezes, consumimos a sobremesa por puro hábito, e não por um desejo genuíno.
Talvez o problema não seja a existência da sobremesa, mas a frequência, a quantidade e a consciência com que ela é inserida na rotina. Reconhecer que o desejo pelo doce é uma manifestação cerebral de busca por prazer — e não uma necessidade de energia — é o primeiro passo para uma relação mais equilibrada com a comida.
Sobre a autora:
Kimberly Belluco Camargo é nutricionista, doutoranda em Ciências da Nutrição e docente do curso de Nutrição da UNINTER. Especialista em Metabolismo e Fisiologia do Exercício.




COMENTÁRIOS